Dentes de Rato Copyright: Agustina Bessa-Lu¡s, 1987 GuimarÆes Editores Reservados todos os direitos LOUREN€A Louren‡a tinha trˆs irmÆos. Todos aprendiam a fazer habili dades como cÆezinhos, e tocavam guitarra ou dan‡avam em pontas dos p‚s. Ela nÆo. Era at‚ um bocado infeliz para aprender, e admirava-se de que lhe quisessem ensinar tantas coisas aborrecidas e que ela tinha de esquecer o mais depressa poss¡vel. O que mais gostava de fazer era comer ma‡Æs e deitar-se para dormir. Mas nÆo dormia. Fechava os olhos e acontecia-lhe entÆo uma aventura bonita e conhecia gente maravilhosa. Eram as pessoas que ela via no cinema ou que ela j  tinha encontrado em qualquer parte, mas que nÆo sabia quem eram. NÆo gostava de ningu‚m que se pusesse entre ela e a imagina‡Æo, como um muro, e a nÆo deixasse ver as coisas de maneira diferente. NÆo gostava que lhe tocassem e, sobretudo, que a gente grande pesasse com a grande mÆo em cima da sua cabe‡a. Apetecia-lhe morder-lhes e fugir depressa. Mas nÆo fazia nada disso. Ficava quieta e olhava para a frente dela, cheia de seriedade. Isto tinha o efeito de causar 7 Ie. estranheza, e diziam sempre que ela era uma menina obedientee sossegada. Mas retiravam a mÆo. Tinham-lhe posto o nome de"dent‚s de rato", porque os dentes dela eram pequenos e finos,e pela mania que ela tinha de morder a fruta que estava na fruteira e deixar l  os dentes marcados. - j  aqui andou a "dentes de rato" - diziam os da casa,escandalizados. Viravam e reviravam as ma‡ s, e em todas haviaduas dentadinhas j  secas e onde a pele mirrara. Era uma maniaque ningu‚m podia explicar. Durante sels semanas Louren‡a vivia na praia com os irmÆos. Eram trˆs, como eu disse. Artur, o mais velho, que tinha umavida misteriosa, como todos os rapazes de doze anos; Falco, queera Francisco, e ainda fazia toda a esp‚cie de asnelras, mesmoa de beber tinta de escrever vermelha porque lhe parecia umabebida agrad vel, ou comer sabonete, e coisas assim. E, por fim,o terceiro, uma rapariga, muito mais velha e que se parecia extraordinariamente com uma pessoa adulta. Louren‡a nem a considerava uma irmÆ. Passava o tempo a mudar de roupa, a ocupar otelefone com conversas incompreens¡veis e a ler livros em vozalta. A isto ela chamava estudar. O nome dela era Marta, maspreocupava-se muito a esse respeito e mentia, dizendo umas vezesque se chamava Helena, outras vezes que era Diana. Sofria enormes desgostos com coisas em que ningu‚m reparava, e era capazde chorar durante duas horas porque o pai se rira do seu penteado ou duma palavra dificil que ela dizia, pondo-se muito tesae com a cabe‡a de lado, como se estivesse num poleiro. Lou- ren‡a olhava para ela e achava-a uma senhora. No entender dela,uma senhora era a coisa mais aborrecida que h . 8 Aos quatro anos, Louren‡a tirou o retrato com Falco vestidode marinheiro e com a perna cruzada. Ela segurava na mÆo um‡Æozinho de pano, um bocado sujo e que o fot¢grafo lhe emprestara para a ter distra¡da. NÆo teve gra‡a o ter de segurar aquelebrinquedo imundo que ela nunca escolheria num bazar. Nessascoisas era muito esquisita. A m e nÆo a enten ra e nunca percebeu nada dos gostos de Louren‡a. As crian‡as sÆo assim - dizia, como se falasse do Entrudo,em que tudo era um bocado disparatado. O que Louren‡a maisadmirava era o vai-vem em que andavam as pessoas. Nunca estavam muito tempo num lugar e mostravam-se agitadas, tinhamdores de cabe‡a se paravam. D“i-me a cabe‡a - dizia a mƒe. E punha na testa um panomolhado com vinagre. Tamb‚m tomava umas pflulas pretas quedizia serem de ferro. Falco provou uma e deitou-a fora.  como uma caganita de cabra, mas mais dura - disseele. - De ferro nÆo ‚. Falco tinha sempre o cabelo espetado e vinha um barbeiroa casa todas as semanas para o aparar. Doutro modo parecia umpˆlo-de-arame. Uma vez o barbeiro tamb‚m cortou o cabelo deLouren‡a e, quando acabou, fez com que ela se visse no grandeespelho da sala de jantar. Pegou nela ao colo e apontou para oespelho. - Parece um rapazinho - disse ele. Isto afligiu tanto Louren‡a que come‡ou a chorar. Choravatanto que acudiu toda a gente da casa. Uns riam-se, outros tratavam de a consolar; mas Louren‡a estava desesperada. Acreditavaque estava mudada em rapaz e que perdera os bra‡os, as pernas, 9 a cara de menina. Era um grande desastre, e nao se podia conformar. Um rapaz era completamente outra coisa; davam fortes dentadas no pÆo e andavam sempre esmurrados. Achava-os feios. Porfim, o seu tio Ant“nio comoveu-se, quando chegou da rua e aviu naqpele estado. - Es uma rapariga moderne. Podes fumar e beber conhaque. O cabelo curto fica-te bem. O tio Ant“nio tinha o dom de convencˆ-1a. Era um homemnovo que aparecia raramente e que tratava os sobrinhos comose fossem sacos de batatas. Puxava-lhes os cabelos e dava-lhesfortes palmadas. Nunca se sabia se ia pegar-lhes pelo cinto esuspendˆ-los no ar, divertindo-se a vˆ-los espernear. - Tens brincadeiras muito esadas - repreendia a m e. Loup ren‡a viu o lado bom do seu desgosto; tio Ant¢nio nÆo podiaagarr -la pelos cabelos e puxar por eles at‚ que ela se mostrassepaciente, como se estivesse morta. NÆo se podia mexer nem gritar; e ele entÆo largava-a. Louren‡a achava-o um bocado perieoso,mas divertido. Contava coisas do tempo em que viveu em A¡ricae das ca‡adas que l  fizera. Falava dos le”es e doutros animaisque grunhiam e lutavam debaixo da casa que ele tinha na selvae que estava segura por estacas acima do chÆo. Tio Ant¢nio eraengenheiro e andara no mato a tra‡ar caminhos de ferro, vestidocomo um verdadeiro explorador, com botas altas e um capaceteforrado de corti‡a para se defender do calor. Tinha agora umcarro grande, descapot vel, de cor verde, que lan‡ava a toda avelocidade nas estrades. Uma vez levou Falco e Louren‡a comele, e o vento tirou-lhes as boinas, que nunca mais viram. TioAnt¢nio nÆo era pessoa para parar para apanhar uma boina. 10  um doido, nÆo gosto nada que as crian‡as andem comele - disse o pai de Louren‡a. Quando dizia estas coisas, baixava o jornal que estava a ler e depois levantava-o outra vez dianteda cara. Era como se nÆo tivesse dito nada. Viviam numa casa pequena dentro dum terreno tÆo amploque ela parecia a casa dos sete an”es numa clareira da floresta. Dentro dela todos trope‡avam, e a mƒe fazia o poss¡vel para osmandar para fora. S“ ficava a cozinheira e nem os gatos l  paravam para comer. Comiam no p tio, mexendo a cauda como seestivessem inquietos e esperassem um ataque dalgum inimigo. O pai era sensacional uma vez por ano. No Carnaval comprava um saco de serpentinas e tantos confetti que eles apareciam na bainha das cal‡as e nas costuras dos vestidos muito tempodepois de terem sido jogados. H  serpentinas douradas e outrasde papel de seda que se desenrolava em cinco ¡itas de cores diferentes. Tamb‚m tinham bisnagas com perfume e, …s vezes, Martadeixava que Louren‡a se fantasiasse com as roupas dela. A mƒeemprestava-lhe um leque e frisava-lhe o cabelo; e ela parecia umacigana. Para fazer melhor efeito, Falco pintou-a com tintura deiodo dilufda em  gua, dizendo que era assim que Marta se faziamorena, duas semanas antes de ir para a praia. A m e, primeiroachou que Louren‡a tinha apanhado uma doen‡a, e depois bateu-lhe e disse muito alto que ela lhe causava grandes arrelias. Tamb‚m se queixou de dores de cabe‡a e mandou-a para o jardim. A Falco ela nunca batia; parecia respeit -lo como se fosse a aiadele e nÆo ouvia quando algu‚m o acusava. Artur era grandedemais para levar a s‚rio a mƒe e ria-se e brincava com ela, seela lhe ralhava. Isto desarmava-a. Quanto a Marta, ela arranjou um namorado na praia, e a m e passou a trat -la com cerim¢nia. Estava sempre a elogi -la e a dar-lhe prendas. E algumas vezespunha-se a chorar e dizia que os filhos a abandonavam. Louren‡atinha medo dessas ocasi”es, porque a mƒc acabava sempre porgritar com ela e mand -la sair de casa. Isto de ter de sair para o jardim era um castigo que a faziaso¡rer muito. NÆo dava a entender que so¡ria, senÆo aquilo podiarepetir-se mais ainda. Fingia gostar at‚. Mas a verdade ‚ que preferia estar dentro de casa e de sentir o cheiro da casa. O cheiroda canela em cima do creme quente; o cheiro da cera no chÆoe da  gua em que se misturou o sabonete do banho. O quartoda mƒc cheirava a coisas dif¡ceis de entender. Havia um cheiroespecial de papel arom tico, quando algu‚m ficava doente; o papelardia sem deitar chama, e um fumo branco voava como uma fitano ar. Parecia um daqueles g‚nios que vivem em garrafas e quesÆo capazes de fazer coisas maravilhosas. "Se eu pudesse chamarum deles - pensava Louren‡a - isso assustava-me.  melhor nÆoo poder fazer." E perguntou a Falco: - Se tivesses um g‚nio dentro duma garrafa davas-lhe liberdade? - Falco pensou um pouco. - Qual g‚nio? s parva - disse ele. Nunca se entendiam em conversas daquelas.  muito dif¡cilser-se amigo fntimo dum irm o ou duma irm . Gosta-se deles,mas nÆo se tratam com a confian‡a que …s vezes um estranhonos merece. Finge-se que tudo ‚ natural para enganar a curiosidade que se tem pelo corpo que est  ao nosso alcance e que ‚belo de ver e de tocar. Falco espreitava as irmƒs quando elas estavam no quarto e fazia isso com muita habilidade. Parecia nÆo 12 ver nada quando entrava e, se elas se escondiam ou lhe ralhavam, dizia que tinha batido … porta e perguntado se podia entrar. Louren‡a nÆo percebia porque Marta era tÆo descuidada e nÆose fechava … chave quando estava a tomar banho. - Pode dar-me uma coisa e morrer. - Se morreres sempre hav¡amos de saber. At‚ porque dentro de  gua apodrecias mais depressa e o cheiro nÆo deixava queficasses ali esquecida - disse Falco. Ele gostava de sugerir quadros de terror; sobretudo quando via os irmÆos a comer comapetite uma coisa saborosa. Falava de lagartas esmagadas e contava como se sangravam as lampreias. Tamb‚m sabia como seaplicavam sanguessugas atr s das orelhas das pessoas e como ficavam inchadas de sangue. O barbeiro Natinhos espremia-as e voltava a us -las como se fossem seringas. Ningu‚m suportava veraquilo senÆo Falco. - NÆo ‚s nada um valente, ‚s um selvagem - disse Marta. Mas via-se que tinha por ele certa predilec‡Æo. Gostava de o pentear e de o cobrir de noite, se o via atravessado na cama, a ressonar alto, com os olhos meio abertos. Sonhava sempre com persegui‡”es e quedas de grande altura, e …s vezes gritava e acordavatoda a gente, em especial Marta, que tinha o sono leve. Falcodormia sozinho num quartinho que a mƒe forrara de papel com rvores castanhas. De longe a longe via-se uma casinha no meiodas folhas, e Falco esperava que algu‚m sa¡sse de l . Isso acontecia quando ele ficava doente e a lamparina se mantinha acesa noquarto toda a noite. Louren‡a achava que o tremor da luz notecto fazia mais medo do que a escuridÆo completa. 13 Ela dormia no mesmo quarto com a irm  e tinha a sua maneirade viver s¢, mesmo com Marta a ocupar todo o espa‡o. Ela enchiatudo com os seus frascos, roupas de baixo e de cima, cartas, revistas e escovas. Tinha uma cama larga pintada de branco onde elanunca se deitava sem sacudir as almofadas e levantar os len‡¢is,com medo das aranhas e das centopeias. A cama de Louren‡aera mais pequena e ainda tinha marcas das grades; quando fezcinco anos, Louren‡a disse que nÆo queria mais grades na cama. Riram-se dela, mas o pai concordou e at‚ mandou um carpinteiro aumentar dois palmos … cama, que ficou esquisita. Falcoachou que ela parecia uma jangada, mas Louren‡a, longe de sedesgostar, imaginava correr os sete mares em cima dela. Acordava cedo e preparava-se para viajar em cima da cama. Sem dizeruma palavra, mexia-se dum lado para o outro, inventando encontros e cenas com pessoas invis¡veis. Marta habituou-se  quilo enÆo lhe fazia a menor pergunta nem a interrompia. Era como seLouren‡a e a cama nÆo existissem. Mas ela estava l , e era umavez uma piroga a deslizar aos solavancos no rio Amazonasenquanto que enormes peixes-boi passavam por baixo e a punhamem risco de ser virada; outras vezes era um transatlÆntico comtombadilhos onde se podia ver o mar cheio de sol; e os peixesvoadores davam saltos de que Louren‡a se defendia com muitadificuldade. Nesses momentos, Marta, se vinha do quarto de banhocom uma toalha enrolada na cabe‡a, olhava para ela estupefacta. Louren‡a pensava imediatamente que ela era a princesa Vasti, aprimera mulher do rei Assuero, tÆo perfumada, altiva e bonitaMarta lhe parecia. E a cama transformava-se numa galera comescravos a remar. At‚ ouvia o bater dos remos na  gua, e enchia- 14 -se de pena porque entre os remadores estava um jovem de grandebeleza que fora capturado. Louren‡a, aos sels anos, sabia muitas coisas que ningu‚m sus- peitava. Guardava-as para ela, porque as pessoas que nos conhe- cem de perto nÆo sÆo capazes de nos levar a s‚rio. Artur ria-seda sabedoria de Louren‡a, a ponto de ela julgar que se tratavade algo de feio. E o proprio pai baixava o jornal para olhar paraela de maneira divertida. Louren‡a nÆo compreendia como osadultos tratavam a gente pequena daquela maneira: como se fosses¢ n£meros de circo e mais nada. Quando Falco chegou … idade de aprender a ler, nÆo foi …escola como os outros meninos. Era um rapazinho d‚bil a quemaconteciam todos os desastres possiveis. Guiomar, uma amiga damde, dizia que Falco procurava ser protegido e amado, e por issosempre se metia em sarilhos. Mas a verdade ‚ que passava oInverno na cama, com um pouco de febre e a comer batatas fritas. NÆo gostava de aprender, ainda que fosse muito engenhosoe inventive. Dona lnˆs, a professora dele, nao o apreciava nemo ajudava muito. Era uma senhora pequenina, com pernas gordinhas muito bem cal‡adas com meias brilhantes e muito caras. Tinha um sinal na cara que encantava Louren‡a. Punha-se a olharpara ele esperando vˆ-lo voar, porque lhe disseram que se chamava "mosca". Ainda que fosse nova demais para receber li‡”es,assistia …s aulas de Falco. Em breve lia o jornal sem que ningu‚madivinhasse; e estava a par das not¡cias e dos folhetins. O primeiro que leu foi Sem Famflia, uma hist¢ria triste e um bocadotola. A mƒe discutia o enredo com grande emo‡Æo, e Louren‡aacheva que ela exagerava. Depois publicaram outras coisas mais 15 apaixonantes e por elas Louren‡a ficou a saber a vida de Lucr‚- cia B¢rgia e de Rosa Vanossa, a senhora m e dela que era amigado Papa. Aprendeu a calar-se a respeito dessas leituras; e quandoDona lnˆs lhe trazia as Hist“rias de Rebolinho, um menino gordoque se embebedou com medronhos, fingia que achava uma belezatudo aquilo. Era simplesmente uma ma‡ada e s¢ as crian‡as atrasadas podiam gostar daquilo. A m e procurava fazer de Louren‡a uma menina maravilhosa;escolhia para ela vestidos com florinhas, soltos como camisas,o que a aborrecia. Sonhava usar modas extraordin rias e saltosaltos, o que acontecia quando imaginava as perip‚cias das suaspr¢prias hist¢rias antes de sair da cama. A ¡amosa cama era comoum palco e em que os travesseiros eram personagens tÆo cheiasde caricter como de l  de ovelha. Decerto era porque o colchÆotinha dentro tamb‚m l  de ovelha, que Louren‡a pensava estarno alto mar. Baloi‡ava em cima da cama como se ela saltasse emcima das ondas, e isto sugeria-lhe acontecimentos passados abordo dum navio. Umas vezes tratava-se de hist¢rias romÆnticas,outras eram hist¢rias de crimes. NÆo era raro um travesseiro irpela borda fora, e Marta dizia: - Que estas a fazer, criatura? Apanha isso. Ela nÆo podia entender o que era um corpo lan‡ado desdeo tombadilho quando havia tubar”es no rasto do barco. Mas tamb‚m estava tÆo entretida a soprar o verniz das unhas, quc nÆopensava a s‚rio em mais nada. Nesse tempo, porque Marta deixou o col‚gio onde estavacomo interna e se recusou a voltar para l  porque nÆo era muitode rezar e fazer contas, o pai mudou a famflia para uma terra 16 muito especial. Era … beira-mar e tinha uma quantidade de esco- las, liceus e col‚gios, assim como igrejas e capelas por toda a parte. Al‚m disso, havia um cinema e um caf‚-concerto, al‚m dumpequeno casino. Toda a gente ficava servida, e no VerÆo nÆo erapreciso mudar de lugar para ir a banhos e divertir-se. Todo oano havia prociss”es e outras festas, e era uma terra sempre cheiade novidade. Em breve se conhecia toda a gente, o que fazia,e as casas onde essa gente vivia. Louren‡a entrou para as primeiras letras, e houve uma certa confusÆo com ela. Sabia demais,mas nÆo tinha feito exame nenhum. As professoras olhavam paraela com aborrecimento. Preferiam que ela fosse ignorante e quecome‡asse pelo principio. Experimentaram deix -la na primeraclasse, mas Louren‡a lia tÆo bem e estava tÆo segura de si queincomodava a professora. Era uma freira bonita e que corava muitoquando tinha que mostrar autoridade. Louren‡a punha-se a olharpara as botinhas pretas que ela usava e que apareciam debaixoda sala, e pensava onde ela teria ido busc -las. Era coisa que ningu‚m vendia mais em parte nenhuma. O caso de Louren‡a foi discutido e ela teve que ser examinada por cinco professores, incluindo a Mestra-Geral. Esta erauma senhora que vivia dentro dum quiosque, no p tio do col‚gio, como se vendesse selos e revistas. Via dali tudo o que sepassava e, como nos quiosques, tinha l  dentro um frasco de rebu‡ados que dava como pr‚mio …s mais pequenas. Louren‡a ficavaorgulhosa quando recebia algum, apesar de Falco lhe dizer queeram rebu‡ados muito baratos e melados pela humidade. Falco ia ao col‚gio para ter aulas de doutrina crist . Uma freiratÆo velha que parecia um pepino em vinagre vinha … sala ensinar- 18 -lhe os mandamentos. Com a ponta do avental preto tapava aspernas de Falco, porque ela era do tempo em que os meninostraziam meias altas e cal‡”es at‚ aos joelhos. Louren‡a nao seria; achava que ela tinha raz”es para ficar tÆo penalizada ao veras pernas de Falco. Na verdade, pareciam duas trombinhas deelefante, e essa ideia enjoava Louren‡a. Mas Falco ia para casae divertia a m e a contar aquelas coisas. Louren‡a nÆo achavaassim tÆo engra‡ado, porque gostava da velha madre. Constavaque ela nÆo tinha um s¢ cabelo na cabe‡a, e Louren‡a pensavana maneira de ver se isso era certo. Por‚m a touca dela, e o v‚uespetado com alfinetes na touca, pareciam bem seguros. No segundo trimestre mudaram Louren‡a de classe, e ela ficouesquecida entre vinte meninas mais crescidas e que olhavam paraela com indiferen‡a. Ali, a professora gritava constantemente evivia preocupada em encontrar erros de ortografia. Marcava-osa l pis vermelho, arreganhando os dentes, como se fizesse sangue com o l pis na pele das alunas. E abanava a cabe‡a com arcol‚rico. Exagerava muito as coisas. Por exemplo, gostava deinventar pretextos para aplicar reguadas nas mÆos das alunas. Louren‡a achava aquilo um pequeno desastre, como chover quandoera a hora do recreio; tinha que ter paciˆncia. Nada tinha a vercom o bem e o mal. Era s¢ um contratempo. A terceira classe era a mais indisciplinada e a que sofria maiscastigos. NÆo porque as meninas fossem diferentes das outras,mas o feitio da professora tornava-as descaradas e maliciosas. Tinham prazer em desafi -la e descobriam que tinham gostos evontades, assim, porque a desafiavam. Louren‡a nao gostava damestra, mas aprendeu algumas formas de dissimula‡Æo muito habi- 19 lidosas gra‡as a ela. Era melhor nÆo ter motivos para gostar delado que ter de amar as professoras mais elegantes e sabedoras. Algumas eram mesmo capazes de tornar uma pessoa triste e infeliz s¢ com distribuir e recusar amor como se fosse pÆo quente. A melhor maneira de passar o tempo de aulas era nÆo darmuito na vista. Louren‡a escondeu que dava pelo nome de Dentes de Rato, para nÆo ter de aceitar isso publicamente. Uma ofensacom imagina‡Æo ‚ carinho; mas com tra‡a ‚ mais do que ofensa,porque se serve daquela esp‚cie de amor que h  na imagina‡Æopara ferir. Claro que Louren‡a nÆo pensava nas coisas destamaneira; tinha s¢ sels anos e andava ocupada em pequenas explora‡”es, assim como ver qual dos amigos de Falco era maior ereparava nela. Sentava-se num banquinho no jardim e dava … manivela da sua pequena m quina de costura, com um ar de boa oper ria. Mas nÆo perdia de vista os jogos de Falco com os outrosrapazes, quase sempre muito mais crescidos do que ele. Tratavam Louren‡a com ternura e os olhos deles pareciam veladosde l grimas quando falavam com ela. Quando viam Marta, quese mostrava na varanda da cozinha como se fosse dar a sua ‚charpebranca a um cavaleiro com lan‡a e escudo, eles coravam e perdiam a alegria de brincar. Marta ria-se deles e nÆo voltava paradentro tÆo depressa como seria de esperar. Marta nÆo era uma irm  muito prest vel. A mƒe recomendava que levasse Dentes de Rato pela mÆo e nÆo a largasse, quandoiam para o col‚gio. Mas Marta esquecia-se de Louren‡a dez passos adiante de casa porque encontrava amigas e conversavamcomo se nÆo se vissem h  cem anos. Eram todas um bocado tolase nÆo se percebia do que falavam, porque nunca acabavam uma 20 converse. Davam gritinhos e, …s vezes, at‚ se empurravam e cafamabaixo do passeio, soltando a pasta dos livros. Marta gostava delevar os livros na mÆo, e nunca lhes punha capa. Gostava quevissera que era uma aluna adiantada e tomava ares severos quandopassava pelas senhoras Caldas. As senhoras Caldas trabalhavamem malhas para fora e sabiam a vida de toda a gente. Eram muitoaltivas com as raparigas pobres e enchiam-nas de conselhos in£teis. Dentes de Rato nÆo se importava nada com a pouca aten‡Æoda irmÆ. Com excep‡Æo das quartas-feiras, porque nesse dia dasemana havia feira da lenha no terreiro em frente ao hospital eelas tinham de passar por l . Os carros carregados de lenha paraos fog”es vinham dos arredores e eram puxados por bois amarelos. Tinham chifres tÆo grandes e estavam tÆo chegados no campoda feira, que se ouvia sempre um rufdo de paus. Louren‡a tinhamuito medo dos bois. Os olhos deles eram parados e nÆo se sabiase eram mansos ou bravos. As vezes, se nÆo estavam bem presosaos troncos das  rvores, que eram pl tanos muito antigos, davamcorridas e ficavam im¢veis como est tuas mais adiante. Louren‡a,quando acordava de manh , e pensava que era quarta-feira, sentia-se infeliz e nÆo tomava com prazer a sua ch vena de chocolate. Mas nunca dizia nada. Ningu‚m ia perceber um medo comoaquele, e podiam dar-lhe explica‡”es que nÆo mudavam coisanenhuma. O que ela queria era que Marta a segurasse com for‡apela mÆo; mas nem isso servia, porque os bois nÆo conheciamMarta nem se importavam com que ela fosse bonita e ajuizada. Os bois eram outra coisa; a boca deles fumegava devagar enquantomascavam palha, e pareciam fumar de maneira pensativa. Mademoiselle Sara, que tomava conta dos recreios e das aulas de estudo, 21 dizia que eles eram um exemplo de obediˆncia. Mas Mademoiselle Sara dizia muitas parvo¡ces. Era toda mimos e eloeios paraas alunas ricas e gostava de as ter como amigas. As vezesconvidavam-na para passar as f‚rias com elas, e Mademoiselle Saravoltava diferente. Ficava mais calada e servia-se … mesa segurandoos talheres com as pontas dos dedos. Era tÆo gorda e grande quenÆo havia futuro para ela. NÆo se podia imagimar MademoiselleSara casada. Artur dizia que ela servia para um vicking e que podiabeber tanto hidromel quanto quisesse at‚ ficar cansada. NÆo parecia muito pr¢prio de Mademoiselle Sara querer cansar-se a beberhidromel. Ela gostava de p”esia e estava sempre a encontrar as coisasmais diferentes deste mundo. Achava que um moinho se pareciacom um av“. As velas a girar devagar eram como as barbas doav“. Al‚m do mais, esse av“ fumava cachimbo e sorria docemente. Enfim, um av“ que ningu‚m tinha. Dentes de Rato nÆo conhecera nenhum dos av“s; viu um deles, na cama, j  muito velho,e lembrava-se que ele lhe estendeu os bra‡os para a ajudar a subir. NÆo se lembrava de mais nada. A cama tinha bolinhas de m‚talamarelo, e ainda estava na casa onde os av¢s tinham vivido. Mademoiselle Sara com certeza nÆo vira nenhum av“ na vida. Ela apareceu no col‚gio novo, que estava organizado parareceber muitas alunas e precisava de vigilantes por todo o lado. No col‚gio velho nÆo era assim. 22 O COLGIO VELHO Primeiro que tudo, ele nÆo se parecia com um col‚gio. A casa era muito antiga e estava sempre escuro l  dentro. A Mestra-Geral nÆo gostava daquilo. Passava o tempo a falar de janelasrasgadas e trazia debaixo do bra‡o rolos de papel que abria emcima das mesas. E voltava a falar de janelas rasgadas. Como Dentes de Rato nÆo perguntava nada (nÆo tinha suficiente confian‡anas explica‡”es que podiam dar-lhe), ainda andou muito temposem perceber. Por fim, leu em qualquer parte que janelas rasgadas era o mesmo que olhos rasgados. Nada tinha que ver comO seu bibe que se rompia nos bolsos … for‡a de os usar, ou oavental da cozinheira, gasto na barriga porque ela se encostava… pia de lavar durante horas inteiras. Era como os olhos de Falco,grandes e abertos e que a mƒe gabava muito. As janelas do col‚gio novo seriam como os olhos de Falco, mas em maior quantidade. 23 O col‚gio velho funcionava como um convento. Tinha freiras velhas e que andavam com passinhos mi£dos e nÆo sabiampraticamente nada senÆo rezar e coser roupa. Algumas bordavame ensinavam piano. Louren‡a sentia-se bem junto delas. As pessoas ignorantes sabem mais viver com as crian‡as do que as outras. Madre Figueiredo sabia quando uma das meninas tinha as calcinhas molhadas, e lavava-as sem ningu‚m ver para nÆo a envergonhar. Escondia a menina no quarto dela durante uma hora (o queera expressamente proibido) e trazia-a depois j  limpa e contente. Se nÆo fosse tÆo baixinha e de nariz tÆo vermelho, parecia umasanta, madre Figueiredo. Havia grilos na aula de lavores e cantavam na obscuridade,dentro das'gaiolinhas com grades de arame. Morriam de repenteem cima da folha de alface, e ningu‚m percebia porquˆ. A professora de ciˆncias, uma secular, nÆo sabia tamb‚m coisa que prestasse sobre grilos. Aprendera s¢ a dar li‡”es sobre o pato e oboi, o que era muito pouco. Ela tinha uma barriga que cresciae encolhia constantemente, e as alunas grandes riam-se disso. Masa Mestra-Geral gritava muito alto, e elas calavam-se. Depois diziaa portera: Nasceu um anjinho … D. Berenice. - E o col‚gio ficavaoutra vez um bocado murcho e sem novidades. A portera tinha o curso de enfermagem e assustava as maispequenas quando olhava para elas com aten‡Æo. Descobria logoquem tinha sarampo ou quem precisava dum purgante. As mÆosduras que ela tinha cravavam-se no bra‡o das internas e levava-as para a enfermaria. Era muito poderosa. S¢ o m‚dico a faziaobedecer, e ela recebia-o sempre com grande respeito. Usava um 24 avental azul e a touca era de pano mais grosseiro, para se diferen- ‡ar das madres professoras ou que tinham levado dote com elas. Que ‚ um dote? - perguntou Marieta …s suas amigas, asgrandes. Tinha mais de quinze anos e aprendera a ler a muitocusto. -Dote ‚ dinheiro ou coisa que o valha -respondeuArnalda, a mais bonita de todas. Ela era ¢rfÆ e pobre, como nashist¢rias, e Louren‡a admirava-a por isso. Era educada por favor,e umas tias que ela tinha mandavam ao col‚gio doces cobertoscom um guardanapo. - O dote de Arnalda ‚ de caramelos - disse Marieta, umdia. Todas fizeram tra‡a dela, mas se viam chegar a bandeja dosbolos diziam que era (o dote de Arnalda". Quando morreu um grilo, um pouco antes das f‚rias grandes, enterraram-no no jardim e fizeram um cortejo f£nebre. Cantaram hinos tristes, e o grilo parecia capaz de ressuscitar na caixinha do algodÆo perl‚. As mestras mais novas censuraram aquilo,mas Madre Figueiredo s¢ abanava a cabe‡a e tinha um sorrisinhoquase malicioso, e nesse momento ningu‚m podia pensar queela era santa. Dentes de Rato nunca chegou a saber onde se estudava, noCol‚gio Velho. Mal entrava no p tio, onde estava na sua guaritaa Mestra-Geral, como uma sentinela, s¢ encontrava corredorese portinhas fechadas com um trinco que j  nÆo havia. Os banquinhos de costura estavam alinhados contra a parede e era precisodeix -los tal e qual e apanhar as linhas do chÆo. Havia sempreduas ou trˆs meninas acanhadas que faziam isso a troco da sim- patia das outras. Louren‡a achava-as medrosas e n- c  ao gostava @e 26 lhes falar. Tinha tamb‚m pena delas; mas era uma pena que lhedava vontade de vomitar, como quando comia tremo‡os- As grandes eram a coisa mais bonita que havia no col‚gio.j  tinham idade de casar e s¢ por muito favor recebiam Martano seu bando. Ela tinha s¢ doze anos e esfor‡ava-se por perceber as conversas das outras mais velhas. Eram conversas muitocomplicadas, os risos delas nÆo deixavam entender nada. MasMarta fingia seguir tudo com esperteza, e acabava por tirar proveito e entrar no segredo. Dentes de Rato olhava para a irm  comespanto. Ela parecia-lhe outra pessoa, tÆo corada e com aqueleolhar humilde, como se quisesse comer uma banana e nÆo a deixassem. Louren‡a tinha esta ideia porque gostava muito de bananas e a mƒe nÆo permitia que as comesse. "SÆo quentes para osintestinos" - dizia. Dentes de Rato nÆo percebia como podiamchegar quentes …s suas tripas coisas como essas. Um dia chegou em que comeu bananas at‚ se fartar. Foiquando a convidaram para um casamento. Era o irmÆo de D. lnˆs,a sua professora das primeras letras, que se casava. Dentes deRato s¢ tinha que apresentar as alian‡as numa bandejinha de prata. Era uma coisa simples de fazer, mas toda a gente estava atrapalhada e dava ordens para todos os lados. Louren‡a acabou pornÆo saber nada, e outra menina levou as alian‡as em vez dela. Louren‡a suspeitou que ela j  tinha aquilo na ideia h  muitotempo. Era uma menina refilona e espevitada a quem toda a genteachava gra‡a. Contudo, Louren‡a devia estar mais encantadoracom um vestidinho de tafet  branco e um ramo de flores corde cereja no ombro. Quando ela passou disseram as mulheres,em duas filas … entrada da igreja: 27 ,@i Que lindo anjinho! Dentes de Rato achou aquilo pouco elogioso, nÆo sabia porquˆ. Os anjinhos eram meninos mortos, ou entÆo os que safamda grande barriga de D. Berenice, sabe Deus em que estado. 28 O CASAMENTO DE MIMOSA A noiva chamava-se Mimosa, o que fazia com que todos achassem gr@‡a nisso. - E Mimosa porque em pequenina lhe davam muito mimo- disse D. lnˆs, a rir. Mas Louren‡a percebeu que ela s¢ queriafazer tra‡a de Mimosa. Era como a fada m  mas com ¢culos querelampejavam ao sol. Desde a¡ come‡ou a gostar da noiva, aindaque nunca a tivesse visto. No dia do casamento, ainda que acordasse cedo, acabou por s¢ estar pronta j  tarde. D. lnˆs veio busc -la num carro alto que parecia uma cartola, e com ela vinha aoutra menina refilona que estava vestida exactamente igual a Louren‡a. S¢ o bouquˆzinho de flores era um bocado diferente. - EstÆo arranjadinhas? - perguntou D. lnˆs quando o carrocome‡ou a andar. Louren‡a nao percebeu o que ela queria dizer;mas a outra menina abanou com a cabe‡a, muito desembara‡ada.- Quer saber se nÆo queres fazer chichi - disse ela. Louren‡a nÆo lhe deu resposta. Achava-a muito grosseira. Al‚m disso, 29 Dentes de Rato estava preocupada com um grande n£mero decoisas. Como ia saber quando entregar as alian‡as? NÆo iam assuas meias escorregar e parecer umas polainas sujas? Tinha chovido e havia lama nos caminhos. E que caminhos tristes, comfolhas a cair dos muros e grandes  rvores como guardas perfilados! A casa da noiva pareceu-lhe um castelo tal como se vˆ nasgravuras. Tinha um alto torreÆo e era cinzenta. Dava a impressÆode estar desabitada, e Louren‡a nÆo chegou a saber se havia umogre l  dentro, como suspeitava. A noiva apareceu … porta, rodeadade gente que a ajudava por todos os lados, como se ela nÆo soubesse andar. Entrou para um autom“vel, e Louren‡a teve desentar-se aos seus p‚s. A menina refilona nÆo cabia, e D. lnˆslevou-a com ela. Mimosa nÆo fazia outra coisa senÆo dar pux”es ao v‚u eao vestida e parecia desesperada. Queixava-se duma por‡Æo depessoas e dizia que o bolo de noiva era uma porcaria. Um senhorgordo batia-lhe no bra‡o para a acalmar. Estava tÆo distra¡doque at‚ se p“s a fazer preguinhas na gola de Louren‡a com asunhas duras e amarelas. Louren‡a sentia c¢cegas no pesco‡o e mexeu-se. - Est  quieta, mafarrico - disse Mimosa. Tinha uma caraavermelhada e espinhenta, e de repente tornou-se numa senhoracasada, com ares s‚rios e investigadores. Come‡ou a chover, eo senhor gordo aplaudiu e disse que era sinal de felicidade. - Os meus sapatos! - disse Mimosa. - VÆo ficar uma mis‚ria. Nunca mais servem para nada. - Louren‡a sentia as biqueiras dos sapatos a magoar-lhe a espinha, e achou bem que elesnÆo servissem mais para aquilo. 30 Divertiu-se muito na festa, a ver as jovens amigas da noivavestidas como estrelas de cinema, com flores de seda na cintae colares de p‚rolas. Pareciam-lhe todas muito bonitas. D. lnˆstinha tanto p“-de-arroz na cara que o sinalzinho quase nao sevia. Ouvia os discursos e limpava os olhos tÆo tristemente queLouren‡a tinha vergonha de nÆo sentir nada. Talvez se pensassenalguma coisa dram tica chorasse tamb‚m um bocadinho. Podialembrar-se dos desastres da "pequena joaninha", uma menina bondosa que morreu por engolir alfinetes; mas coisas dessas nÆo serviam para a fazer chorar. EntÆo trouxeram um cacho de bananas para a frente dela. D. lnˆs serviu-a de uma banana e voltou a prestar aten‡Æo aosdiscursos. Eram cada vez mais tristes e ela cada vez chorava mais. Uma das damas de honor desmaiou e levaram-na nos bra‡os parafora da sala. Louren‡a comeu outra banana. Toda a gente trocavabrindes e se mostrava arrependida por ter chorado. Louren‡acomia mais bananas e tinha j  um monte de cascas no seu prato. NÆo sabia como livrar-se delas e parecia-lhe que iam descobrirquantas bananas comera e dizer … sua mde. Deitou duas cascaspara o chÆo, mas ainda ficaram muitas no prato. - Santo Deus! Esta menina vai ficar doente! - disse D. lnˆs. E juntou as mÆos como se fosse rezar. - Quantas bananas comeu,Louren‡a? Quantas foram? Louren‡a achou que ela estava a mostrar-se tÆo preocupadacomo se fosse uma criada. As pessoas que mandavam nÆo faziamaquele barulho. Nesse momento, o senhor gordo que amachucara a sua gola de tule levantou-se para falar. P“s a mÆo no cora‡Æo, e um rapaz disse que ele segurava a carteira. Mimosa ja nao 31 estava na sala e nÆo ouviu o sermÆo do senhor gordo; Louren‡acome‡ou a sentir sono e achava que aquele era talvez um ogrecom a barriga cheia de carne assada. Tinha modos de farejar noar o cheiro dos meninos e, decerto, quando ela estivera sentadaaos seus p‚s, ele quis saber se o pesco‡o dela era tenro. - Tenho que levar esta crian‡a a casa - disse D. lnˆs. Anoite cafa e ouvia-se m£sica. Os pares juntavam-se para dan‡are as mesas estavam a ser arrumadas. Com os restes de comidae as n¢doas de vinho, aquilo dava um impressÆo de coisa ordin ria. -  uma ma‡ada... Deixa-a dormir e leva-se mais tarde,quando as pessoas forem embora - disse algu‚m. - NÆo. Prometi entreg -la cedo. - D. lnˆs estava atarefadacom aquela obriga‡Æo de vestir o casaco a Louren‡a e arranjarquem pegasse nela ao colo. Um irmÆo dela prestou-se a isso, naosem perguntar de maneira sonsa: - A outra, a Marta, nÆo a convidaste? -  muito tola e nÆo ia aceitar. -  pena.  bem bonitinha. - O rapaz pegou em Louren‡acomo num saco e deitou-a ao ombro. Ela percebeu o cheiro daroupa nova e de bisnaga de Carnaval. Dormia e nÆo dormia. Sentiu o perfume das flores que cafam em cachos pela varanda eviu, com desgosto, as luzes atrav‚s das janelas que iam ficando… distÆncia. A festa era uma coisa que estava perdida para sempre; nÆo podia ficar nem ver toda essa gente que ria e dan‡ava. A pena encheu o seu cora‡Æo e tornou-se tao grande que pareciamaior do que todo o corpo. Inchava e Louren‡a nao podia mais. As coisas assim sem rem‚die nÆo deviam existir. Quando D. lnˆs 32 se despediu pondo a mÆo na sua cabe‡a, o que acabou de a deses- perar, Louren‡a rompeu em pranto. Ela pr¢pria se espantava comopodia chorar tanto. - Mas, Louren‡a, porque nÆo disse que queria ficar maistempo? - disse D. lnˆs. A mƒe pediu-lhe que nÆo ¡izesse caso. E, entre l grimas vivas e grandes solu‡os que safam do peito comoquem destapa o ralo duma banheira, Louren‡a achava-as a ambaship¢critas. Ela calara-se, mas era uma maneira especial de calar-se; via-se logo que ela queria estar ali at‚ o £ltimo convidadosair. Mas pedir, isso ela nÆo pedia. Percebia que D. lnˆs estavamorta por livrar-se dela, e aquilo ofendia-a. Quando ela se foi embora, Louren‡a, no grande quarto dedormir da m e, chorou ainda algum tempo de maneira que parecia nÆo poder parar nunca. Depois consolou-se com um pratode arroz requentado, como se fosse uma pobre e nÆo comesseh .muito tempo. A mƒe disse, maravilhada: - Mas como ‚ isto? NÆo deram de comer a esta crian‡a? Dentes de Rato, por‚m, comera bem, sem falar nas bananastodas que engoliu e das nozes de chocolate. Era o cheiro da casaque lhe abria o apetite; aquele cheiro familiar de coisas conhecidas e guardadas na mem¢ria do cora‡Æo. O arroz arrancado dotacho com um forte garfo e que safa em placas tostadas sabia-lhecomo o melhor manjar do mundo. Louren‡a dizia: - Nunca vou querer ser rica. Penso que um dia sou muitorica, chego a um hotel ' como se chegasse a um castelo cheio decoisas boas, com criados vestidos de seda que aparecem para meservir. E eu digo: "Quero arroz tostado, aquele arroz que fica nofundo do tacho e que ‚ preciso muita for‡a para o fazer sair". 33 Todos se olham, sem compreender. H  perdizes e peixes de ouro e violetas doces. Mas nÆo h  arroz tostado. EntÆo, de que vale ser muito rica? Palerma - disse Falco. - j  viram esta pingona? Isso foi j  nas v‚speras de mudarem de casa, e nÆo sabiamainda que ela seria vendida e nÆo voltavam mais. Foi vendidatÆo de repente que ningu‚m teve tempo de levar as coisas deque gostava e que estavam espalhadas ou nÆo se sabia bem seiam fazer falta. Falco deixou no lago o seu barco de pesca, ondecabia um ‡Æo de tamanho m‚dio e onde chegou a meter Louren‡a uma vez, - Segura-te, Dentes de Rato, que eu nÆo te largo - prometeuele. Mas o barco virou-se e Louren‡a tomou um banho. Foi umtrabalho para esconder aquilo da m e. Artur trouxe de casa roupaseca, mas como nÆo percebia nada de vestidos e meninas apareceu como um fato de inverno. Era um vestido de veludo pretocom papagaios de feltro aplicados na sala e que come‡ava a ficarcurto a Louren‡a. Al‚m disso era um vestido luxuoso e, num diade junho, quente como sei li o quˆ, ela parecia fantasiada. Falcoria-se tanto que teve de agarrar-se a uma arvore para nao cair. - Vou pedir a Marta que venha c  - disse Artur, aborrecido.- Marta nÆo; vais estragar tudo. - Marta era tÆo senhoracomo a mƒe e fazia um barulho enorme por qualquer coisa. - EntÆo arranjem-se. - Artur foi-se embora, muito digno earrependido por se meter com gente tÆo pequena. Por fim o prO- prio Falco resolveu as coisas e levou Louren‡a …s escondidas paracasa. Fez com que subisse de gatas a escada de caracol e meteu-a 34 no quarto de banho, onde lhe deu ordem para se lavar bem. MasDentes de Rato nÆo sabia tirar o lodo do cabelo e nÆo ficou nadaapresent vel. A mƒe nÆo reparou, ocupada como andava a metercoisas em caixas e a empalhar as ch venas melhores. Tinha famade saber fazer mudan‡as como ningu‚m, e tinha orgulho nisso. Mas Marta, essa reparava em tudo. Mam , olhe a Louren‡a... - disse, … mesa. E tapou a bocacom o guardanapo para se rir … vontade. Via-se que estava encantada com aquele pretexto para acusar algu‚m. Que tem? - disse a m e. Partia a carne em fatias equeixava-se da m  qualidade dela e do homem do talho que anÆo sabia servir. - Ndo conhece a rabada. NÆo a diferen‡a dojarrete, ‚ um incompetente. Para a mƒe, o mundo dividia-se em diverses graus de incom- petˆncia. - Custa-me admitir, mas todos sÆo uns incompetentes. - Tinha umas mÆos bonitas e um anel com uma pedra azulescura num dedo. Era agrad vel ver sempre essa pedra no dedoda mƒe. Falco olhava as moscas que se acasalavam no ar com grandezumbido, em risco de partirem as asas. NÆo se atrevia a olharpara Louren‡a que, de facto, parecia bastante esquisita. Artur salvou a situa‡Æo; fez um gesto amea‡ador a Marta, e ela calou-se. Ela respeitava os homens, e depois dos quinze anos podia-se tera certeza de ser obedecido e servido por ela. Falco dizia que airm  tinha ra‡a de perdigueiro. Atirava um pau para longe e dizia: Boca... vai buscar... - Marta ficava fula. NÆo chegaram a ter saudades da casa, nem do jardim, nemde nada. Tinham vivido l  pouco tempo. A vida de ricos era triste. 36 Louren‡a achava que os muros altos e as tflias gigantes do par- que a vigiavam todo o dia. Quando os pobres tocavam a sinetado portÆo, ela corria para os ver. Pareciam-lhe muito mais fasci- nantes do que a gente da casa, bem vestida e, nÆo sabia porquˆ,amea‡adora. Era gente sempre desconcertante e a ponto de seacusar constanteme nte. Mais tarde, Louren‡a lembrou-se de algumas coisas bonitas. O altarzinho que a mƒe fazia em Maio, cobertode flores brancas, era uma dessas coisas bonitas. Cheirava comoum doce quente, com a‡£car por cima. O casamento foi a £ltima ocasiÆo de ver D. lnˆs. Ela saiupara sempre da vida de Louren‡a, com o sinalzinho na cara eos ¢culos de aros de ouro. Outra hist¢ria come‡ava, e sentia-seisso na altera‡Æo que todos mostravam, como se embarcassem,deixando na margem o ‡Æo de guarda chamado Congo, o queLouren‡a achou injuste. 37 77 O PAI O pai era uma pessoa am vel e que se levantava tarde. Parecia uma visita, e a mƒe tratava-o com muito respeito. Lavava-lheos p‚s e preparava-lhe comida especial. Ele nunca falava alto. Tinha at‚ uma voz rouca, que se ouvia mal. Tinha o direito deencher a banheira at‚ … borda e de demorar no banho uma manh inteira. Nunca estava para jantar e safa sempre …s cinco da tarde,vestida como outros faziam para ir … missa. As vezes trazia presentes fabulosos; mas nunca se lembrava do dia dos anos de ningu‚m. Eram as criadas que cobriam de flores as cadeirinhas altasde Louren‡a e de Falco, quando eram mais pequenos- elas davam-lhes prendas que traziam do mercado, junto com as compras. O pai e a m e nÆo reparavam naquilo. De repente aparecia umabicicleta em casa, ou uma bola de cores; mas parecia que nin- gu‚m trazia aquilo, e nÆo dava gosto encontrar essas coisas. Louren‡a partia as bonecas sem saber como. NÆo duravam nada nasmÆos dela, e era o mesmo com os outros brinquedos. 39 m esp¡rito de destrui‡Æo dizia a m e. Dentes de Rato Es u nÆo percebia o que ela queria dizer. Tamb‚m nÆo percebia comoas bonccas cafam tÆo facilmente das mÆos dela. Segurava-as comtodo o cuidado, apertava-as mesmo contra o peito, e elas cafamda maneira mais desastrosa. Serafina, que fora ama da mƒe, escondia os cacos durante algum tempo e calava-se. Mas as coisas sempre acabavam por ser descobertas. - NÆo h  crime perfeito - dizia Falco. - Porquˆ? - Louren‡a queria saber porquˆ- - Porque nÆo h . - Falco, como era costume, passava oInverno na cama e estava entretido a folhear o seu ilbum de selos. Era outro presente do pai, mas Falco nÆo se interessava nada comaquilo. Preferia jogar as cartas e fazia batota quando podia. Liarevistas policiais e deixava que Louren‡a as lesse, mas s¢ quandoj  ele pr“prio as tinha lido at‚ … £ltima linha, o que demoravamuito tempo. Como sabia o desfecho, nÆo era poss¡vel que ficassecalado e descobria tudo. Dentes de Rato tapava os ouvidos; gostava de adivinhar as coisas, e nÆo havia nada que mais a aborrecesse do que lhe revelassem os segredos que ela mesma deviaperceber. Ningu‚m ensina tÆo bem como a necessidade; aquilo aprende antes de tem rende verdadeiramente,que se po nao se ap s¢ se acumula na cabe‡a. Mas o cora‡Æo nÆo toma parte. O pai era uma pessoa diferente doutra qualquer. Sentava-se… cabeceira da mesa e, quando nÆo estava, ningu‚m podia ocupar-lhe o lugar. Louren‡a olhava para o s¡tio vazio e, de repente,a comida nÆo passava e os olhos cresciam por dentro com a chegada das l grimas. Depois acalmava. NÆo gostava de chorar; achavauma perda de tempo, porque as coisas nÆo se arranjavam com 40 o choro. Marta chorava por tudo e por nada, e conseguia queas pessoas se interessassem por aquilo que ela queria. Mas Louren‡a ficava humilhada s¢ com a ideia de inspirar pena a algu‚m. Um dia caiu e esfolou os joelhos na areia do jardim; o sangueque corria assustou-a muito e ela gritou. Tio Ant¢nio, que tinhachegado nesse moments, fez tra‡a dela e disse: - Isso nÆo ‚ nada. A pele estava rasgada e nÆo parecia f cil comp“-1a. j  eraalguma coisa. Percebeu que a gente grande nÆo era muito inteligente. NÆo sabia diferen‡ar o que acontece do que nÆo acontece. Louren‡a gritava, nÆo porque lhe dofa, mas porque ningu‚m podiacompor de repente a sua pele; e isso queria dizer que se tratavadum acontecimento verdadeiro. "AmanhÆ est s boa" - disseram-lhe. Mas o que era amanh  Louren‡a nÆo queria saber. Agoraera muito mais importante. O a¡, esse teve um sorriso que parecia doer-lhe na cara. Louren‡aesqueceu-se do ferimento e do joelho que ela nÆo se atre- via a mexer, e calou-se. NÆo podia olhar para o pai assim aflito e a tentar parecer distra¡do. Estava envergonhada e deixou que a curassem sem se importar. Era tudo melhor do que causar pena nos olhos do pai, pena de homem, que ‚ uma coisa que parece que vai durar para sempre. O pai estava constantemente com ideias de mudar. Compravauma casa e vendia-a logo. Comprava um autom¢vel e nÆo podiaconserv -lo muito tempo. Gostava de fazer negocios, e a maedizia que ele at‚ nÆo se importava de perder neles. A ideia depoder ganhar ‚ que lhe interessava. Uma vez comprou uma quinta,mas nunca ia l . Era a mƒe quem se ocupava com tudo e andava 41 sempre no caminho com Artur, que j  guiava um Ford velho,todo arranhado de passar em maus caminhos. Artur tinha quinzeanos e nÆo podia guiar, mas nunca ningu‚m lhe disse nada. Tamb‚m nÆo era perigoso andar naquelas estrades. O mais que podiaacontecer era cair num buraco e ficar li at‚ encontrar maneirade sair. Havia lavradores que at‚ ganhavam a vida a alugar osbois para puxarem os automo'vels que calam naqueles abismos. Eram autˆnticas armadilhas. Artur aprendeu a dar a volta, abrindouma cancela e passando pela terra duma vi£va gorda que ficava… porta de casa a ver como os caes perseguiam Artur. Ele tinhaque abrir a cancela e sentar-se ao volante no tempo que os cƒeslevavam a chegar ao p‚ dele. Se escorregasse e cafsse, podia ver-se em dificuldades. Louren‡a, no banco de tr s, fingia que nÆoestava l . Assim tinha a ilusÆo de que os cƒes nÆo existiam. Eramgrandes, pardos e tinham os olhos vermelhos. NÆo ladravam- s¢rosnavam baixo, como se fervessem. Era impressionante. Mas quando se entrava no portÆo da quinta esquecia-se tudoA grande ramada deitava uma sombra quente, e os cachos de uvaamericana cheiravam a morangos bravos. Li estava a casa, comouma igreja em ruinas. As salas podiam guardar uma carruagemcom cavalos e tudo; nos corredores havia al‡ap”es e, quandose abriam, viam-se em baixo as cabe‡as das vacas. Os cornos delasbatiam todo o tempo no sobrado, e aquilo, no meio da noite,fazia medo. Mas Louren‡a habituou-se. Passou l  as f‚rias deSetembro com Falco e o primo Dinis que andava no Col‚gio Mili- tar. Nunca largava a farda e mostrava-se por toda a parte comoum principe antigo. NÆo entrava nas brincadeiras e ningu‚m sabiase lhe agradava alguma coisa neste mundo. As filhas da casera 42 espreitavam para ver e riam-se como se estivessem sufocadas comum bocado de pÆo-de-l¢. A m e deixava-os ficar e voltava para casa depois de distribuir tantas ordens ao mesmo tempo que era imposs¡vel percebero que queria. Depois chamava a toda a gente incompetente, eaquilo deixava-a satisfeita. - Custa-me muito, mas tenho que admitir: sÆo uns incompetentes. Tamb‚m dizia, quando estava zangada, que as pessoas andavam no mundo por ver andar os outros. Isto parecia muito estranho, mas era melhor nÆo querer entender. Arranjavam-se sempre complica‡”es. Havia dois criados na casa de Cavaleiros, que era o nome da quinta. Eram casados e chamavam-se Em¡lia e David. Traba lhavam e cantavam todo o tempo e ocupavam-se pouco de Lou ren‡a. Mas ela seguia-os, assim como o cÆo Brilhante, que era um modelo de fidelidade. Tamb‚m ele parecia gostar de cantar e dan‡ar. Fazia piruetas e dava corridas como se fosse perseguir uma lebre. - Brilhante, p“e-te aqui num instante - dizia Emflia. Era tÆoalta que Louren‡a mal lhe chegava … cintura; e o marido era tÆopequeno que nunca lhe falava de perto, para ele nÆo cansar opesco‡o a olhar para cima. Eram ambos muito boas pessoas, eLouren‡a nÆo podia passar sem os ver por perto. Emflia desciapelos al‡ap”es para tirar o leite …s vacas, e elas mugiam comose a estivessem a cumprimentar. Punha nomes at‚ aos ratos e…s formigas. NÆo tratava Louren‡a como se ela fosse uma boneca. Deixava-a andar … roda dela e parecia cobri-la com a alegria que 43 tinha no cora‡Æo e nas mÆos, e at‚ nos cabelos fr'sados como se fossem feitos de l . Falco passava o tempo a inventar coisas aventureras e …svezes sala-se mal. Punha armadilhas aos p ssaros, mas nÆo cafal  nenhum; Dinis, da janela, olhava para ele com desd‚m e atirava aos pardais com a espingarda de chumbos que era de Falco. Nunca acertava, e dizia que a arma nÆo prestava. Falco queriaexperimentar a ca‡adeira de David, mas ele escondia-a onde nÆopudesse ser encontrada. Havia em frente da casa um edif¡cio a que chamavam o celeiroe que tinha por baixo as adegas. Mas, se eram adegas, eram diferentes das outras, porque tinham portas de grades e mais pareciam pris”es. Emilia dizia que era ali onde os Condes de Cavaleiros prendiam as pessoas. - Que pessoas? - perguntava Louren‡a. - Ladr”es ou gente como essa. Mas isso era no tempo dosAfonsinhos. Agora nÆo se prende c  ningu‚m. Enganava-se. 44 OS CONDES DE CAVALEIROS A casera tinha um filho pequeno chamado Artaxerxes. O nome arrevezado punha-o doido e tornou-se, al‚m disso,muito mau. Todos se espantavam de ele se chamar assim; etudo era culpa dum padrinho rico que sabia muito de Hist¢riaantiga. Xerxes - dizia a mƒe - , vai apanhar erva para os coelhos. - Ou entÆo gritava do fundo do campo: - Xerxes... Xerxes, anda c  nino... Nino queria dizer menino. E perro queria dizer zangado. Amƒe de Xerxes, a senhora Teodora, estava quase sempre perra. Tamb‚m tinha duas filhas, bonitas como s¢ visto. O cabelos brilhavam ao sol, ainda que tivessem em cima uma boa camada decinza da lareira. Emflia achava-as vaidosas e namoradeiras, masLouren‡a pensava que elas tinham mais razao para isso do queMarta. E Marta nÆo largava o espelho todo o santo dia. Isto dosanto dia foi coisa que Louren‡a nunca percebeu. Quando a m e 45 se aborrecia com uma criada, dizia: "NÆo faz nada todo o santo dia". E tomava um ar mortificado. Um dia Louren‡a viu Xerxes muito desesperado, a fazergestos feios para assustar as raparigas que vindimavam, e disse-lhe:- A mim chamam-me Dentes de Rato. Ele empurrou-a com toda a for‡a e at‚ Brilhante se indignoue se p“s a ladrar- Xerxes ria-se e mostrou o punho fechado: - Dentes de Rato? Levas um murro. Chega-te c  e levas um murro. Louren‡a sentiu-se tÆo infeliz que nem parecia triste nemnada. olhou para Xerxes e p“s os olhos no c‚u, como as santasprontas ao martirio, e disse assim: Perdoa-lhe, Senhor, que nÆo sabe o que faz... isto teve um efeito esquisito em Xerxes- Finglu que estava ali por estar e assobiou ao cÆo para o levar com ele. At‚ lhe fez festas no focinho- Da¡ por diante nunca mais olhou para Louren‡a dircito, e ela achou que nunca mais eram amigos ou inimi gos na vida. Era uma coisa que do¡a, mas era assim. - Xerxes passou a ser tÆo ligado a Falco que nÆo o largava- Deixava as touras no campo at‚ … noite e fugia para seguir Falcopor toda a parte. Falco aprendeu com ele palavras muito feias, e dizia-as como se nada fosse. Em¡lia ralhava-lhe e ele fazia de conta. - Os fidalgos nÆo devem falar assim - dizia. Alifidalgo eraum homem que usava gravata e, no melhor dos casos, doutor. Mas Falco nÆo se importava. Tinha descoberto uma coisa novapara arreliar toda a gente que o nÆo deixava em paz; as palavrasfeias faziam-no parecer valente e preparado para tudo. NÆo queria ser um fidalgo, mas antes parecer-se com Xerxes, que ele 46 achava destemido como ningu‚m. Descobriam sempre maneirasde correr novos perigos, e Xerxes contava proezas extraordini- rias. Tamb‚m contava hist¢rias de fantasmas, para impressionarFalco. Dizia que os Condes de Cavaleiros eram dois irmÆos: umtocava guitarra na varanda, encostado …s colunas de pedra, e trazia uma faixa branca a tiracolo e uma pluma na boina; o outroca‡ava a lebre, a cavalo, nos campos de milho que se viam l em baixo. Tamb‚m ca‡ava ursos na cerca, que era uma florestapequena. Para isso precisava de licen‡a do rei. - Porquˆ? - disse Falco. - Ora! Que canudo, nÆo percebes nada. Os ursos eram cha mados para soldados quando havia guerra. Era proibido mat -los antes. Sendo assim..., disse Falco. De noite pensava nos condese tinha muito medo. Os cornos das vacas batiam no sobrado,e ele encolhia-se na cama, tao cansado de esperar apari‡”es, quej  nio se importava com nada. No quarto enorme entrava a lua,como se ali dormisse. Era j  no fim de Setembro, ou mais, e nÆo se lembravamde mais nada para fazer. Tinham gasto as ideias com experiˆncias, como eles diziam, e faltava carbureto da dispensa , porqueeles o usavam para fabricar bombas. Gostavam de ver explos”ese causar estragos e participar nos perigos. Quando Emilia queriacarregar os gas“metros com que se alumiavam, nÆo encontravaas pedras de carbureto e ficava muito intrigada. - Estavam aqui ontem. Isto ‚ coisa do mafarrico. - OuentÆo: - isto ‚ coisa do satanico. 48 satanico era um homenzinho pequeno que crescia e mingava e que aparecia …s crian‡as quando andavam longe de casa. Todas acreditavam nele e diziam que o tinham visto. Come‡ou a chover, e Marta veio visit -los e trouxe-lhes roupas quentes. Passou a tarde sentada na borda do tanque, a balan- ‡ar as pernas, muito aborrecida, enquanto Artur dava voltas aovelho Ford, que nÆo pegava. Usava a manivela para o p“r a andar,ele tossia como gente e nÆo se mexia. Marta disse: - NÆo vou ficar aqui um minuto mais. Preferia ter vindo a p‚!- Volta entÆo a p‚, se quiseres - disse Artur. Raramente respondia mal, e Louren‡a pensou que ele devia estar muito arreliado. Tinha saudades de casa, mas mostrou-se corajosa para nÆo aborrecer mais o irmÆo. "Tomara que ele saia daqui depressa, nem que o autom“vel pare logo fora do portÆo. NÆo aguento mais e nÆo quero pedir para me levarem" - pensou. Achou que todos deviam perceber que morria de pena e que queria ir-se embora. Marta estava em grande conversa com o primo e nÆo reparava em nada. Louren‡a desejou que uma cobra lhe entrasse pelo decote, ou um sapo. Mas foram os morcegos que vieram, ao cair da noite, e fizeram com que Marta gritasse. Teve muito medo de que eles se agarrassem aos cabelos, e abra‡ou-se a Serafina com for‡a. Serafina tinha as malas prontas e partiu tamb‚m. A casa de Cavaleiros pareceu de repente sem ningu‚m l  dentro. At‚ Emflia tinha desa- parecido. Os £ltimos dias foram muito acidentados com coisas boase m s. Os £ltimos dias de f‚rias sÆo sempre assim. Aparecem imensas coisas para fazer e que, sem se saber porquˆ, se tinham esque- cido. Al‚m disso o tempo torna-se mais doce e convida aos gran- 49 des passeios, e at‚ as pessoas da casa sÆo mais pacientes e dispos- tas a fazer vontades. Enfim, torna-se tudo mais dificil para a des- pedida. A vaca Rosinha, que era turina, quer dizer, preta e branca,teve uma cria. Louren‡a foi ver o bezerro, que fumegava comose o tivessem tirado dum caldo quente; achou-o uma beleza, eRosinha mugia baixinho, de contentamento- NÆo se ‚ uma vaca preta com manchas brancas, ou branca com manchas pretas - disse David. Era pr¢prio dele fazer daqueles enigmas, e contava outros ainda mais complicados para resolver. Era malicioso, e Em¡lia estava sempre preocupada com o que ele ia dizer diante das crian‡as, o que aborrecia Louren‡a. As ideias de David eram do mais engra‡ado deste mundo. S¢ ele alegrava uma festa com a sua viola e cantigas ao desafio. Louren‡a pen sava se ele nÆo se pareceria ao conde trovador da faixa branca, l  na varanda do lado. Dizia-se a varanda do lado porque a casa dos condes estava dividida em duas, e a varanda, com as dez colunas de pedra, pertencia … vizinha, Teresa Martins, ou Teresa das quest”es; chamavam-lhe assim porque andava sempre nos tri bunais e nÆo parava em casa para nada. Usava uma faixa atada … cinta e tinha olhos azuis sempre cheios de desprezo. Emilia dizia que ela era m  mulher; mas Louren‡a achava que os filhos dela (dez filhos, tantos como as colunas da varanda) a tratavam como se ela fosse uma rainha. E se fosse mesmo uma rainha? Louren‡a pensava que D. Teresa, a m e de D. Afonso Henriques, devia ter sido como Teresa das quest”es: grande, furiosa, com olhos azuis como dois pires de lou‡a. Em casa havia um pires assim, dum azul esbranqui‡ado, que tio Ant¢nio trouxera da Dinamarca. As 50 vezes Louren‡a via a Teresa Martins a espreitar da varanda. ComiapÆo com grandes dentadas, e as arrecadas de ouro estremeciamcom a for‡a dela a comer. 51 Monte dA CIVIDADE monte da Cividade era um lugar muito antigo. Os romanos tinham l  um quartel que servia para vigiar tudo em volta,e ainda se podium ver restos das casernas e das habita‡”es deles. Apareciam tamb‚m pucaros de barro quebrados e at‚ pulseirasde ouro. O monte estava ao lado da quinta de Cavaleiros e eracomo uma cabe‡a que safa da terra, com os olhos fechados. Daaldeia de Corvos ele s¢ parecia um monte qualquer, e mais nada. A aldeia de Corvos ficava em frente da casa de Cavaleiros;era preciso atravessar um campo muito maior do que um est diode futebol para l  chegar. Era um campo onde dantes os condesfaziam justas para se treinarem para a guerra, e Falco dizia queele fora regado com sangue; por isso ‚ que apareciam espigasvermelhas quando se colhia o milho. Mas dizia isto para assustarLouren‡a; s¢ que ela j  estava habituada. Na aldeia de Corvos havia muitos cƒes e todos eram ferozes. Os rapazes atiravam pedradas …s portas dos quinteiros, que eram 53 as portas que serviam para passar os carros de bois, e eles ladravam como doidos. At‚ era pena obrig -los a desesperar-se daquelamaneira. Quem tinha os cƒes mais valentes era a senhora MariaCosta, uma lavradeira rica. Tinha tamb‚m trˆs filhas e um filhodo mais bonito que podia haver. Louren‡a nÆo se cansava de olharpara eles quando Emflia a levava a casa da senhora Maria Costa. Pareciam feitos de barro colorido e tinham cabelos aos cachos,pretos. At‚ Marta os achou bonitas. E Marta s¢ gostava de genteesbelta e com ar cansado. A senhora Maria Costa era vaidosa, Oque quase parecia imposs¡vel com aquelas salas de roda e chinelos nos p‚s com solas de madeira. Sentava-se nos banquinhosde pedra junto das janelas e olhava para os campos com prazere orgulho. Era tudo dela, o que se via dali. Louren‡a pensavaque as mulheres eram quem mandava; os maridos delas quasenao apareciam. Falco combinou com Xerxes subirem ao monte da Cividade. Levavam batatas para assar e bacalhau cru. Pensavam passar l o dia inteiro a fazer explora‡”es. Louren‡a teve inveja da liberdade que eles tinham e quis ir tamb‚m. Raparigas sÆo um empecilho. Se ela for eu nÆo vou disse Xerxes. Empurrou Louren‡a e ela caiu e at‚ se magoou. Falco nÆo fez nada para a socorrer- Vais para outra vez - foi tudo o que ele disse. Afastaram -se, e Louren‡a sentiu o cora‡Æo apertado ao ver que desapare ciam sem se importarem mais com ela. Levavam no farnel nozes verdes, de que ela gostava muito- Apare ceram so o noite, e era de desesperar nÆo contaremnada do que viram. Falco guardava segredo de tudo; ou entÆo 54 esquecia-se depressa das suas aventuras. Tal e qual tio AntOnio,que dera a volta ao mundo e nunca se lhe arrancava nada doque gozara ou padecera. Pessoas assim nÆo ajudavam os outros a viver. Passados uns dias aconteceu quase o que a m e chamava "umatrag‚die". Falco apanhou um tiro na cara, e os chumbos mi£dosficaram l  metidos e foi preciso ir curar-se ao hospital. O pai dessavez veio busc -lo, j  de noite, Louren‡a estava deitada. Emfliafez o poss¡vel por esconder-lhe o desastre, mas ela percebeu quehavia um movimento desacostumado. Ningu‚m se importou comela, e isso magoou-a. Quase lhe apeteceu ter levado um tiro tamb‚m; nÆo na cara, isso era repugnante e nunca se sabia o resultado. Podia perder o nariz, o que era humilhante. Pensava queFalco perdia o nariz, e aquilo dava-lhe vontade de rir, apesar dapena que sentia por ele. "O rid¡culo mata", dizia tio Ant¢nio. Lou- ren‡a achava que aquilo, sim, ela percebia- Ficou sozinha na casa de Cavaleiros. Caiu-lhe o primeiro dentee David ensinou-lhe a atir -lo para o telhado, para que lhe nascesse outro. Xerxes tinha desaparecido. Emilia contou que elerugira para a Cividade e que s¢ apareceu quando a fome O obrigou. Mas Louren‡a nÆo o viu. Andava ocupada a ajudar Emfliaa fazer a marmelade, e descascava marmelos com uma faquinhaagu‡ada que servia tamb‚m para tirar as pevides. Emflia encheuquatro tigelinhas de barro do tamanho dum tinteiro e Louren‡aia todos os dias p“-las ao sol a secar. As vespas ¡izeram-lhes buracos, que at‚ parecia imposs¡vel elas comerem tanto em tÆo poucas horas. Em¡lia tinha o cuidado de cobrir a marmelada com uma cortina velha de ‚tamine. E dizia: 55 As ladras! As bandidas! - Sacudia-as com o avental, e Louren‡a pensava se alguma vespa lhe entrasse na cabeleira crespanunca mais podia sair. Come‡ou a chover e o gado agitava-se muito nos eidos, queera o lugar onde se recolhia. Sabiam quando ia trovejar; a aldeiade Corvos ficava escura e a tempestade cala de repente e traziaum pouco de terror, como uma novidade que o cora‡Æo estima. A casera passava com as salas pela cabe‡a, gritando qualquer coisa,e o homem dela estava … porta de casa, com um saco a fazerde capuz. Mas Xerxes nÆo se via em parte nenhuma. Louren‡a,que tinha ido com Emflia ao celeiro, ficou … espera que ela lhetrouxesse um guarda-chuva. Mas Emilia demorava-se; tinha sempre que fazer pelo caminho ou nÆo sabia da chave da cozinha,ou encontrava algu‚m que a desviava e se punha a conversar. Louren‡a esperou um tempo infinito, e chovia tanto que a  guaestalava como chicotadas nas pedras. Foi entÆo que ela ouviu barulho e pensou nos condes de Cavaleiros, com armaduras de ferro,a mexer-se li para o lado das adegas. "Agora at‚ me apetece vˆ-los" - pensou Dentes de Rato. Quando sentia curiosidadetornava-se muito valente. Ningu‚m podia imaginar do que eracapaz nessas ocasi”es. Desceu as escadas para a adega e estavatao escuro que so se viam as teias de aranha brancas a balan‡arao vento que entrava pelas frestas. Continuava a ouvir o mesmobarulho, como se algu‚m batesse no ferro com outro ferro. Obarulho vinha das pris”es dos condes, que na verdade nÆo passavam de antigas garrafeiras. Uma voz disse: Olha a Dentes de Rato! Arremalada, que fazes aqui? Louren‡a nÆo via ningu‚m, porque os olhos dela nÆo se 56 tinham habituado ainda ao escuro. Mas reconheceu o tom de Xerxes. Ele estava atr s das grades e fazia correr um prego por cimadelas, como se fossem as cordas duma harpa. - Est s a¡ preso? - disse Louren‡a, espantada. - NÆo. Estou a cantar missa na Cova da Iria. - Que fizeste? Quem te trouxe para aqui? - Olha, nina, dei um tiro no teu irmÆo. Ele ‚ um safardana, mas foi sem querer. Meu pai prendeu-me e disse que fico aqui at‚ ir para a tropa. - ‚ muito tempo? Ele nÆo respondeu. Ou fazia contas ou perdera a coragem. Louren‡a deitou a correr e foi contar a Emflia, que se benzeu e falou com o caseiro logo a seguir. Estava muito indignada. David tamb‚m ajudou um pouco e pediu para Xerxes ser solto. "Nem ao Brilhante eu fazia isso. A liberdade ‚ sagrada" - disse ele. O bigode tremia-lhe, de tÆo comovido que ele estava. Mas s¢ quando o caseiro teve medo de ser despedido ‚ que esteve de acordo em tirar Xerxes da adega. Nesse dia ele fugiu de casa. - Antes quer encarar o mundo do que a n“s todos que lhequeremos bem - suspirou Emflia. - Nunca mais c  volta. Louren‡a achou que Xerxes tinha um cora‡Æo duro, mas ningu‚m se ria dele. Ela desejou que Xerxes tivesse sorte e que arranjasse trabalho num circo; e fosse c‚lebre, como o menino Lufftman, que todos admiravam por saltar de cavalo em cavalo comgrande gra‡a e habilidade. Na praia, pediam-lhe aut¢grafos, e todosse orgulhavam de ir nadar com ele. A m e veio buscar Louren‡a e ouviu a hist¢ria de Xerxescom ar carregado. NÆo disse nada. Via-se que nÆo lhe perdoava- 57 Falco ia ficar para sempre com trˆs pintas no nariz, da p¢lvoraque entrara na pele. Quando olhava para aquilo, …s vezes Louren‡a lembrava-se de Xerxes e pensava no que lhe teria acontecido. Depois esqueceu-o comp etamente. O pai vendeu a quinta, como vendia tudo. Louren‡a, dessa vez, teve pena. Em¡lia e David ficaram l  a servir os novos patr”es, e mais tarde aconteceu com eles uma hist¢ria muito triste. Para quem gostar de hist“rias tristes, pode ser que eu um dia conte o que lhes aconteceu. Quando Louren‡a voltou para o col‚gio, estava muito modi- ficada. j  nÆo merecia o nome de Dentes de Rato, porque eles tinham-lhe ca¡do e tinha outros novos, mais redondos e fortes. Falco ficava um bocado amuado quando ela o convidava a apre ciar a bonita dentadura que agora tinha. Ainda ‚s um insecto - dizia Falco. - Nunca h s-de seroutra coisa. - Mas Louren‡a nÆo s¢ tinha dentes mais fortes; ocora‡Æo tamb‚m estava mais valente e nÆo se preocupava comaquelas injurias. At‚ gostava de desafiar Falco, e sabia comohavia de o incomodar de variadas maneiras. Marta tinha umaquantidade de namorados a quem ela prometia amor eterno; maslogo a seguir dava ouvidos a outros e divertis-se com o sofrimento deles. Imitava as mulheres mis do cinema, mas o paidizia que ela era uma menina como outra qualquer. Louren‡apensava que ser uma menina como outra qualquer nÆo era l grande coisa. De repente aborreceu-se de usar bibes ou o uniforme pretoque a mƒe achava tÆo distinto. Vestia Louren‡a … inglesa, o queera muito desengra‡ado. Come‡ou a ter birras que lhe davam 58 para nÆo comer. A m e nÆo sabia como lidar com ela. j  nÆo eraDentes de Rato, e a sensatez dela evaporara-se. - Que fizeram … minha filha? Trocaram a minha Louren‡a disse a mƒe. Louren‡a queria um quarto s¢ para ela e parecia odiartoda a gente. Olhava para Marta duma maneira, quando ela searranjava ao espelho, que a irmÆ se virava assustada. - Que ‚? Nunca me viste? - Tens um olho maior clo que outro - disse Louren‡a- AirmÆ ficou tio alarmada que foi medir os olhos com um compasso. Eram iguais. Mas Louren‡a repetia sempre: - O esquerdo‚ maior do que o direito. NÆo sei ‚ porque te afliges tanto. Umdeles ‚ com certeza um olho m gico- s um monstre! - gritou Marta. Queixou-se a toda a gentede Louren‡a e at‚ assentou casamento com o rapaz que melhorsoube ouvi-la nessa ocasiÆo. Ele dava-lhe razÆo em tudo. "Como‚ parva" - pensou Louren‡a. "NÆo tem miolos; parece-lhe queamar ‚ aquela pasmaceira." Para ela, amar era ir abra‡ados, … popadum barco, numa grande tempestade- Ver a morte diante dosolhos e nÆo se separarem- S“ o pai a tratava como dantes, sem muita confian‡a; mas olhava …s vezes para ela como se a vida paresse … volta e s¢ Louren‡a estivesse viva no mundo. Raramente lhe dava um beijo e,se o fazia, era com respeito e alguma severidade. NÆo era umpai camarade, como se usava ser; Louren‡a pensava que um paidesses nÆo lhe convinha. NÆo enganavam ningu‚m, e notava-selogo que eram tÆo velhos como os outros. Ela preferia que o paifosse assim, uma pessoa um bocado doutro tempo e que falavade coisas completamente desinteressantes - do pre‡o do vinho e da crise da lavoura. Tinha segredos com a mƒe, mas isso fazia parte do direito de serem os pais e nÆo quaisquer outras pessoas. Louren‡a fez nove anos. Era uma idade em que ningu‚m repa- rava. Quando Marta fez quinze, Serafina disse que era um n£merobonito. E quando Artur completou dezoito, o pai deu-lhe umacigarreira de prata e deu-lhe tamb‚m licen‡a para fumar; Arturfumava desde os dez anos, mas pareceu ficar muito contente. Quem repara em quem faz nove anos? Serafina disse-lhe: - Se fizesses doze, dava-te a minha gargantilha com o cora‡Æo de ouro. - E nÆo fez mais do que presente -la com um len‡ode cambrais. Ainda assim, foi o melhor de tudo. Era um dia comoos outros e nÆo p“de faltar …s aulas. Marta disse, sabendo quelhe desagradava: - Esta pancr cia faz hoje anos. E Falco tocou alegremente a buzina do velho Ford, que soava duma maneira rid¡cula. Quando tio Ant¢nio chegou, dois dias depois, trouxe-lhe um rel“gio de pulso. Tio Ant¢nio era padri nho de Louren‡a. - Toma, pelo dia dos teus anos - disse. Puxou-lhe o cabeloe deu-lhe dois safan”es. Com ele, as coisas pareciam nÆo termudado. O rel“gio nÆo funcionava l  muito bem, mas era elegante e de muito bom gosto. Outra coisa nÆo se podia esperarde tio Ant¢nio. … noite, estando aberta a janela do quarto, uma pomba veio pousar no peitoril. Come‡ou a dar voltas e a arrulhar. " o meu pr‚sente de anos" - pensou Louren‡a. "Algu‚m o mandou, de muito longe ... " O cora‡Æo dela, oprimido e cheio de inconfess  veis tristezas, encontrou de repente consola‡Æo. Achou que o mundo inteiro esperava por ela, e os mares todos, com as suastempestades, podiam ficar calmos porque ela assim queria quefosse. Porto, 9 de Maio de 1983. Fim 102 OFICINAS GRAFICAS DE GUIMARÆES EDITORES RUA DA MISERICORDIA, 68 EM LISBOA IMPRESSÆO E ACAbAMENTO TIPOGRAFIA GUERRA VISEU ISBN 972-665-075-5 Dep“sito legal n., 65091/93